Intercâmbio de saberes

Nos dias 24 e 25 de fevereiro, os ganhadores da 18ª edição do Prêmio Santander Universidade Solidária se reuniram, no auditório do Centro Ruth Cardoso, em São Paulo, para o I Encontro de Coordenação de Projetos desta edição.

Após a premiação, realizada em novembro do ano passado, esse foi o primeiro momento de encontro do grupo, que reuniu representantes das comunidades, professores e alunos com o objetivo de interagir e trocar experiências com os demais projetos, além de conhecer melhor a dinâmica de trabalho e execução do Prêmio.

“A premiação em si, a cerimônia, é um estoura coração, parece um Oscar”, brinca a professora da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Mato Grosso do Sul, Marney Pascoli Cereda. “Eu esperava uma coisa muito burocrática, com as explicações dos próximos passos. Mas o que me encantou foi a vivência que os consultores voluntários e a equipe técnica do UniSol têm. A imagem que faço deles é como a de um maestro: nós somos os instrumentos, tocando meio assim desafinados e eles estão ali agrupando, indicando os melhores caminhos”, afirma.

Marney é coordenadora do projeto “Valorização da produção da agricultura familiar com a comercialização de frutas desidratadas e barras energéticas a partir de produtos locais e com tecnologia inovadoras e sustentáveis”, desenvolvido nas Associações Broto Frutos Culinária do Cerrado, localizada em Campo Grande e na Cooperana, instalada no assentamento Nova Aliança, em Terenos, ambas no interior do Mato Grosso do Sul.

O projeto tem como objetivo ampliar a escala de tecnologias já utilizadas nos processos atualmente, integrando as ações do centro de pesquisa da universidade, duas comunidades rurais, para valorizar a produção de frutas desidratadas e, com essas frutas, elaborar barras energéticas doces e salgadas, que aproveitarão também o mel, castanhas e a farinha de mandioca da região.

Novo olhar despertado
Ainda durante o primeiro dia de encontro, os grupos iniciaram o trabalho no plano de ação de cada projeto. Revisões de orçamento, metas para os próximos meses e detalhes operacionais, foram alguns dos assuntos que permearam as discussões em grupo.

Durante esse momento, o conselheiro da AlfaSol e consultor voluntário do programa UniSol, Waldenor Barros Moraes Filho, falou aos participantes sobre a importância da troca de informações entre os grupos. “Às vezes, em conversas e questionamentos simples e informais sobre o projeto do outro, você encontra soluções para problemas que você achava que eram impossíveis de ser resolvidos”.

Esse momento de interação também foi fundamental para a que a representante da comunidade do Assentamento Zumbi dos Palmares, em Branquinhas (AL), Maria Rita Rosa dos Santos, conseguisse enxergar a universidade de outra maneira.

“Hoje eu consegui enxergar a Universidade com outros olhos. Porque você vê o universitário lá, um pouco distante e eles ficam assustados conosco e nós com eles. Às vezes, a gente não sabe falar para eles o que nós queremos; muitas vezes, a gente não sabe nem como falar com eles. E eles estão ali para nos ajudar, mostrar novos horizontes”, revelou.

O projeto no qual Rita está inserida é o “Colhendo bons frutos: nutrição e agroecologia”, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Por meio da premiação, o projeto pretende incluir comunidades vizinhas a de Branquinhas, com o cultivo e beneficiamento de produtos agroecológicos, participação em feiras orgânicas e comercialização dos produtos.

A partir do encontro, Rita disse ter refletido sobre a relação entre a comunidade e a universidade. “As pessoas acabam se tornando distantes pela maneira como se colocam e não deveria, não deve ser assim. Agradeço aos professores que nos ajudaram a colocar no papel aquilo que a gente quer e que acreditaram na gente. Isso fez com que nós também voltássemos a acreditar no nosso próprio potencial”.

Extensão universitária na prática
Estudante do 4º ano do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Guilherme Ferreira é um dos membros da equipe do projeto “Desenvolvimento participativo da cadeia produtiva sustentável de aves no assentamento Iraci Salete”, em Alvorada do Sul (PR).

O Assentamento, criado no ano de 1999, conta com 60 famílias assentadas.  Com o apoio do Prêmio, o projeto vai aprimorar e gerar novos conhecimentos para a produção de aves, contribuindo para a promoção do desenvolvimento sustentável a partir da adoção de medidas baseadas na agroecologia.

“É muito bom você conseguir ir até a propriedade, ver que o que você está estudando na sala de aula e aplicar de alguma forma. Além disso, você consegue muito mais aprender com eles do que entregar conhecimento, ou levar tecnologia. Na sala de aula, temos acesso às metodologias, tecnologias e tudo mais o que a academia oferece. Mas o que a comunidade nos dá em troca em termos de humanidade é revigorante”.

Após os dois dias de trabalho intenso e de conversas fortalecedoras, o grupo sai fortalecido e ansioso pelos próximos passos. Como bem lembrou a professora Marney, durante sua fala: “Saímos daqui hoje não mais como um grupo de vencedores do Prêmio Santander, mas como um grupo de profissionais com uma visão mais clara do que espera e do que pode fazer. Foram dois dias fantásticos”.